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Mulheres em cena: vivência na SOF (Sempreviva Organização Feminista) e palestra com escritora Alice Ruiz abordam feminismo com jovens monitoras/es

A vivência temática aconteceu no Ponto de Cultura da SOF e na Biblioteca Álvaro Guerra

Juventude, feminismo e cultura. Esses foram os temas da formação da segunda-feira (10/08) com os/as jovens monitores/as culturais das Bibliotecas Públicas, do CCJ – Centro Cultural da Juventude e do Museu da Cidade e Arquivo Histórico.

Pela manhã, a vivência foi na SOF – Sempreviva Organização Feminista, instituição localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo. As responsáveis pelo Ponto de Cultura, Carla Vitória e Helena Zelic, recepcionaram os/as jovens e realizam um debate sobre os temas e sobre o trabalho da SOF.

Juventude, cultura e feminismo - Manhã (44)A instituição foi fundada em 1963, mas nem sempre teve esse nome por conta do período ditatorial que o Brasil viveu. Desde essa época, vem desenvolvendo trabalhos com mulheres, com temas como agroecologia, políticas públicas, combate à violência e economia solidária. O espaço da instituição é aberto a reuniões de militantes da Marcha Mundial das Mulheres, movimento presente em mais de 90 países, cuja luta contra o patriarcado está atrelada à luta anti-capitalista e anti-racista.

“O que a SOF faz com mulheres tão diversas? […] É formação feminista e nosso método é a partir da educação popular. Juntas e coletivamente aprendemos muito mais do que sendo uma pessoa só”, afirmou Carla.

Como Ponto de Cultura desde o início do ano, a organização iniciou um trabalho mais efetivo junto ao eixo da cultura. O Ponto está atrelado ao movimento de mulheres e pensa a ocupação da rua e as intervenções sempre a partir das vozes das mulheres. Para as responsáveis, se tornar um Ponto de Cultura dá continuidade ao que a instituição já estava trabalhando antes.

O Ponto de Cultura tem programações fixas, como o Cine Quintal, realizado toda 4ª quarta-feira do mês. Também realizam cursos, voltados para comunicação feminista e ativismo digital. Durante a formação com as/os jovens, elas refletiram sobre como nossa sociedade atual tem uma relação com as redes digitais e como estas precisam estar atreladas ao movimento das ruas. Nesse sentido, o curso foi para formar mulheres para que conseguissem atuar nas redes.

Pontuaram também que fazem atividades em equipamentos públicos, como o Centro Cultural da Juventude e o Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes. Carla e Helena estão planejando um novo curso sobre produção audiovisual, chamado “As mina na fita”, a ser realizado em novembro.

Para elas, quando se fala de mulheres e cultura, não estamos falando apenas de mulheres na cultura. O assunto trata também de representatividade, do envolvimento em todo o processo cultural, dentre outros temas. Elas citaram como exemplo o cinema, uma das produções artísticas mais desiguais quando se fala de gênero. “Quando as mulheres põem a mão na massa para fazer, o ponto de vista fica mais verdadeiro. Quando a gente faz cultura, queremos passar para as outras alguma coisa”, disse Helena.

Outro tema que elas trabalham bastante no Ponto de Cultura é o uso de softwares livres, realizando um debate crítico sobre a organização da internet e seu conteúdo, a partir da questão da privacidade para usuários e usuárias. Elas apontaram que a discussão acerca das ferramentas livres tem relação direta com a forma como as pessoas produzem cultura.

Carla explicou parte do modo de funcionamento de um sistema patriarcal, em uma sociedade que funciona calcada na divisão sexual/de gênero do trabalho, um dos pontos centrais para a desigualdade histórica. Quando ela fala de trabalho, pensa não só no trabalho remunerado, formal, mas também no trabalho doméstico, não considerado em nossa sociedade. Ela pontua que a organização trabalha com a mudança do sistema como um todo. “Então quando a gente trata de feminismo estamos falando de tudo. Mudar o mundo para mudar a vida das mulheres”.

O diálogo com os jovens monitores e monitoras culturais foi fluido, em tom de conversa. Muitas jovens monitoras perguntaram sobre os temas feministas trabalhados pela instituição, questionaram como a organização vê o debate do feminismo interseccional, mulheres em situação de prostituição, dentre outros temas.

Para Carla e Helena, a organização pretende construir a igualdade a partir das diferenças. “A gente pensa um movimento que aconteça nas ruas, nas redes e nos roçados”, reforça Helena. Um dos desafios constantes é sempre discutir como fazer um movimento que abarque todas as mulheres.

“O que queremos é que todas as mulheres tenham em mente que existem desigualdades na sociedade, que existe um sistema que explora o trabalho delas. Estamos menos presas aos nomes e mais ao que conseguimos fazer se olhando no olho”, afirmou Carla.

Elas também analisaram brevemente o contexto político atual e o avanço das pautas conservadoras. Para elas, esse contexto também é uma resposta da melhora das condições de vida que aconteceram nos últimos anos.

O bate-papo terminou com algumas frases ditas pelas coordenadoras, produzidas pelo movimento durante a Virada Feminista que ocorreu no CCJ: “Nós, muitas e diversas, pela liberdade de mudar o mundo”.

 A poesia de Alice Ruiz

Durante o período da tarde, os/as jovens prestigiaram a palestra de Alice Ruiz na biblioteca Álvaro Guerra.  O momento inaugurou o evento Encontro com Escritores, que visa aproximar autores do público do equipamento.

Alice Ruiz - Tarde (2)

Em um encontro descontraído, a escritora compartilhou como funciona seu processo criativo e como foi escrever e pertencer a uma geração de poetas e poetisas brasileiros/as marcados/as por um momento histórico de crise do regime autoritário. Ela também falou sobre seus flertes com o modernismo, com a tropicália, concretismo e como atuou como poetisa ativa no movimento da contracultura brasileira. Seu primeiro livro, Navalhanaliga, publicado em 1980, é o exemplo de uma subversão poética com terreno nas realidades sociais da época.

Respondendo às perguntas dos jovens, Alice contou ao público que a música e a poesia são duas paixões em sua vida e que sempre gostou de escrever as letras, enquanto os artistas compunham a melodia e cantavam. Dentre as parcerias mais famosas, destacam-se: “Milágrimas”, letra de Alice Ruiz e melodia de Itamar Assumpção; e “Socorro”, letra de Alice Ruiz e melodia de Arnaldo Antunes.

Uma jovem do público perguntou à poetisa sobre a inspiração para a composição dos haicais. O haicai é uma palavra originária do japonês haikai e pode ser, de forma simples, definida como uma forma poética composta de três linhas, onde a primeira e a última contém sempre cinco sílabas e a segunda sete.

Alice respondeu que, apesar do haicai ser curto, é preciso de algumas técnicas para desenvolvê-lo. Ela já realizou muitas aulas de haicai para ensinar a técnica a jovens e adultos. A poetisa explica que a inspiração, muitas vezes, deu-se nas próprias aulas, pois esses momentos formativos ocorriam ao ar livre, junto à natureza. No momento do público exercitar a escrita, também inspirava-se para realizar suas composições.

A obra completa de Alice Ruiz pode ser vista em seu site oficial.

Confira também alguns haicais da poetisa:

“Nesse país sem greve
Só o relógio
Faz o que deve”

“Presente de vênus
Primeira estrela que vejo
Satisfaça meu desejo”